Escrevo isso com sono.
Eu fui uma criança que escrevia fanfics, já lancei minha cota de capítulos escritos de madrugada enquanto eu estava com sono. Parecia uma grande prioridade para mim me entregar de corpo e alma para criar aquelas histórias e levar um pouco de conforto para os meus leitores.
Agora eu estou aqui trabalhando em coisas pra esse mesmo website e o sono está começando a tomar conta dos meus olhos. Meu plano inicial era escrever o artigo de pENSAMENTOS sobre O Show de Truman, mas não consigo pensar direito. E achei que seria interessante reproduzir aquela situação de acordar no dia seguinte e me deparar com a merda que escrevi na madrugada anterior. Mas também me lembrei de um rascunho de post que fiz anteriormente chamado de “Pare de lutar contra o sono”.
O sono e preservar um dormir saudável é uma filosofia secundária do coletivo OREM e eu só fui introduzido a essa ideia depois que me juntei ao coletivo. Eu fui e ainda sou do tipo que gosta de ficar virado fazendo meus projetos, mas quando o sono começou a parar de ser reparador para mim de uns meses pra cá, eu comecei a explorar a ideia de ir atrás desse sono saudável.
Parece uma coisa meio piegas, pra ser sincero. Todo o discurso do auto-cuidado é meio humilhante e infantilizador pra mim. Talvez seja porque lido com uma miríade de problemas psicológicos há muitos anos e sou meio averso à ideia de receber ajuda, por sabotagem do meu próprio cérebro.
Então eu não estou escrevendo isso para pensar no sono saudável nesses parâmetros. Eu quero falar do sono como um ato revolucionário.
O trabalho incessante que vai horas e mais horas além do combinado, o estudar da faixa privilegiada de jovens em escolas particulares, a vida caótica do universitário, os deadlines, todos todos todos os deadlines do mundo, tudo são deadlines e você precisa ficar acordado para cumprir esses deadlines. Senão… senão…
A verdade é que a produção com o sono é defasada, muitas vezes quase inutilizada e a falta de energia gerada pelo sono comprometido piora todo o cenário em um ciclo insanamente complicado de se quebrar, uma vez que esteja se retroalimentando por muito tempo.
Se a ideia do capitalismo, dessa sociedade neoliberal que constantemente nos fabrica, é ordenhar produtividade da classe trabalhadora ao máximo possível para priorizar o lucro, não seria intuitiva a ideia de preservar o sono do trabalhador? Por que existe então a ética do “trabalhe/estude/produza/viva enquanto eles dormem”?
A minha observação é que o corpo sonolento é um corpo dócil. Um corpo que se escora na produção automática. Um corpo que não questiona porque seu cérebro já não acompanha suas ações. Um corpo que não pode protestar, pois não tem energia. Um corpo que não faz greve, não faz ocupação, não cria, não escreve, apenas obedece e cumpre o maldito deadline.
O desrespeito pelo ciclo do sono do trabalhador é uma forma da máquina do capitalismo obter mais produção, já que o povo não dorme e produz para a máquina, e ao mesmo tempo obter servos mais obedientes.
Então durma, porque não querem que você durma. Durma pois dormir é um ato revolucionário. Cuidar da própria energia para produzir para si mesmo e sua comunidade, para ter energia para questionar e lutar.
No mais, está muito quente aqui no deserto, e eu quero dormir.
Então, sonhadores, boa noite.
— Celeste