Reassisti o Show de Truman finalmente depois de ter visto pela primeira vez em 2018 durante uma crise depressiva que apagou várias das minhas memórias pré-pandêmicas.
A experiência de ver esse filme no contexto sociopolítico atual e na cena das redes sociais que presenciamos é, assim como seus cenários, muito liminal.
As pessoas têm dificuldade para explicar o que é um espaço liminal quando se explica a estética e as fotografias, e filmes como O Show de Truman. Eu gosto de descrever espaço liminal como breve intervalo entre inspirar e expirar. O pico de um respiro, a sensação estagnada de transição. Não necessariamente traz um sentimento positivo ou negativo por si só, tudo depende do momento. O espaço liminal pode ser desesperador como o sufoco e gentil como o alívio.
Eu descreveria as sensações trazidas pela progressão dramática do filme como algo que define bem essa estética. O momento em que Truman encontra seu criador e fica no limite entre sair desse mundo fabricado e ficar nele, o momento que o vemos se virar para a câmera antes de dizer seu habitual “bom dia, boa tarde, boa noite”.
No mesmo dia em que assisti, tive contato com o discurso mais flagrante do filme: a forma como vidas reais são tratadas como coisa pública, como entretenimento, como objetos.
Se não me engano foi depois de ouvir uma retransmissão da Rádio Grande Povo, em que o Paz falava sobre os stories da filha do prefeito da cidade que um amigo meu vive. Conversa fiada, coisa característica de mídia que não só não tem permissão pra falar muita coisa, mas também não tem muito o que dizer. Mas a banalização de acompanhar a vida de uma mulher real como um reality show era meio absurda.
Lembro de sair da Terra/Vigília para viajar pelo Deserto com lembranças vagas de coisas irritantes que deixei para trás, dentre elas esse apego com a realidade ficcionalizada. Discussões sobre o corpo das pessoas, vidas de filhos de influencers e propagandas invadindo a vida real. A forma que a esposa de Truman trata os produtos anunciados é mais atual do que nunca, além do conceito do show.
A paixão do Truman que “desvia do curso” é mais do que só uma história de amor. É uma revelação da sua natureza indômita como personagem, e da vontade inata do ser humano de ser livre (esta que pode ou não permanecer viva).
Achei engraçado quando fui atrás de resenhas do filme e encontrei um vídeo sobre a cena logo no início em que Truman está fazendo jardinagem. A famosa cena do Jim Carrey com a bunda na câmera.
O apontamento feito por essa pessoa era que Truman estava cavando o buraco que ele, mais tarde, usa para fugir da casa escondido das câmeras. O fato de que ele está bem no lugar de onde ele sai mais tarde é completamente ofuscado pela interação com Meryl/Hannah e, bem, pelo traseiro do Jim Carrey.
Eu enxergo isso não só como uma distração cômica, mas também como um comentário social.
O primeiro comentário, o mais óbvio, é o pão e circo. O absurdo, o entretenimento e até mesmo o erótico ofuscando a realidade por debaixo dos panos. Mas é um panem et circenses subvertido, uma vez que a parte oculta não é a tramoia do governo, e sim do Truman.
Mas o segundo comentário é um pouco mais obscuro. Afinal, Truman não representa apenas o homem médio estadunidense sendo explorado pela mídia. Ele representa todas as pessoas, um fenômeno geral da pessoa real posta sob os holofotes. Isso inclui mulheres. Ou melhor dizendo, qualquer pessoa objetificada na sociedade.
No curta-metragem Manspread (2024) de Tiana Michele, é apresentada uma inversão de papéis em que a mulher objetifica e fetichiza o homem, a mulher é quem invade seu espaço e se impõe sobre suas vontades. No fim do curta, a imagem é revertida para a mulher oprimida. Mas qual o objetivo de mostrar essa reversão? São famosos os filmes e curta-metragens que invertem, por exemplo, homofobia para heterofobia. O quadrinho Cisforia de Lino Arruda traz uma distopia similar a Manspread. Mas não há reversão à nossa realidade no fim, nesses exemplos.
Ao ver os comentários de outros espectadores, o objetivo fica mais claro. Pessoas dizendo que o cenário do homem oprimido pareceu absurdo, e que se sentiram estranhas ao não terem a mesma reação de absurdismo com o cenário da mulher oprimida. Ou que apenas perceberam o absurdismo da situação da vida real quando observam homens passando por elas.
Quando vemos um homem magro e de semblante divertido e dócil como Jim Carrey colocado numa posição sexualizada, é engraçado e absurdo. Mas quantas vezes não são colocados destaques gratuitos nas partes íntimas de mulheres na mídia, sem que o espectador homem cis perceba algo de estranho ou desnecessário? Ou então destaques na sexualidade de um homem que se encaixa no padrão de beleza, se formos aproximar mais da experiência do Show de Truman; ou de um homem de classe fetichizada, como homens negros ou os rapazes dos grupos de K-Pop?
Truman, como sujeito explorado, delata o absurdismo da exploração. Afinal, por que há câmeras numa altura tão baixa plantadas no jardim de Truman? Se não for para pegar close-ups duvidosos do homem quando estiver fazendo jardinagem, não vou saber dizer para o que é.
Comentários mais críticos a esse cenário foram feitos com a propaganda de Sydney Sweeney para a American Eagle, em que uma marca cujo público alvo são garotas jovens usou ângulos apelativos e fetichizantes no corpo da atriz. Houve uma reação marcante com o tom supremacista branco da propaganda, mais a aura desconfortável geral.
Todos os silêncios, os cenários monocromáticos, a similaridade com a propaganda horrível da Calvin Klein com Brooke Shields nos anos 80 (que tinha apena 14 anos na época). Talvez algumas pessoas tenham confrontado pela primeira vez a ideia do corpo feminino explorado gratuitamente — fenômeno que já aconteceu muitas vezes, com poucas críticas, na participação de Sydney Sweeney em Euphoria.
Talvez tragamos outras análises do Show de Truman, sendo o filme mais conhecido pela representação da estética dreamcore que gostamos tanto aqui na OREM. Mas isso fica pra outro dia.
De toda forma, caso não nos vejamos de novo, um bom dia, boa tarde e durmam bem!
— Celeste